Peças às cores, de variados tamanhos e feitios. Peças de cheiros, de sons e de sabores. Memórias em peças e histórias aos pedaços. É assim, o puzzle da vida.

Monday, July 17, 2006

A vida por detrás dos cromos

Há alguns anos atrás, quando andava no jardim-escola, uma das actividades mais populares entre a miudagem era a troca de cromos. Não sei se os miúdos ainda se entretêm assim, mas da nossa geração quem é que nunca coleccionou e trocou cromos? E quem diz cromos diz calendários, caricas ou borrachas (estas últimas eram mais para as meninas, claro).
Na minha escola, no final do dia de aulas, íamos todos para o salão polivalente enquanto esperávamos que os nossos pais ou avós nos fossem buscar. Era nesse entretanto que tinham lugar as trocas. Expunham-se os cromos, faziam-se ofertas, contra-ofertas, aceitavam-se ou rejeitavam-se propostas e selavam-se acordos com um aperto de mão.
Todas as manhãs, também eu levava na mochila uns certos cromos para a troca. Embora não fosse dos que possuíam mais cromos, confesso que sempre achei que me dava bem nesse negócio. Isto porque com mais ou menos esforço (leia-se mais ou menos cromos) lá levava para casa aquele cromo favorito que pretendia.
O que é engraçado é que só há bem pouco tempo, já na fase adulta da minha vida, é que me apercebi como a abordagem à troca dos cromos está intimamente ligada à forma como cada um de nós vê a vida agora. Passo a explicar. Toda a gente sabe que há cromos que valem mais que outros - porque uns são grandes e outros pequenos, porque há uns mais bonitos que outros, ou mais difíceis de encontrar, etc. A ideia a reter é que os cromos possuíam valores diferentes e isso ditava a troca.
Ora, a minha abordagem era a seguinte. Por todas as razões acima enunciadas e, principalmente por aquela razão altamente subjectiva que é o gosto pessoal, eu lá valorizava uns cromos mais que outros. E estava disposto a oferecer alguns dos repetidos em troca daquele que queria. Aquele cromo que nunca mais trocaria.
Percebo agora as outras abordagens... as daqueles miúdos que não lhes interessava que cromos tinham mas sim o número de cromos que possuíam (a abordagem insensível "quanto mais melhor"), as daqueles miúdos que trocavam um cromo num dia, do qual se fartavam facilmente, e um ou dois dias depois já o estavam a oferecer em troca de outro (a abordagem egoísta do "prazer imediato"), etc.
O que é curioso é que me apercebi disto agora porque é assim que todos nós (já graúdos) continuamos a viver o dia-a-dia...

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