Peças às cores, de variados tamanhos e feitios. Peças de cheiros, de sons e de sabores. Memórias em peças e histórias aos pedaços. É assim, o puzzle da vida.

Thursday, September 22, 2005

O "Homem moderno português"

É sabido que não gosto de estereótipos. Mas existem. E todos os usamos. Ninguém gosta de ser classificado como betinho, dread ou malta do xuning. Dizemos "Não me queres conhecer como sou, estás a julgar-me apenas pela aparência". Mas, a verdade é que todos classificamos os outros segundo determinados grupos que criámos. Considero que é um mal necessário. Nunca poderíamos conhecer profundamente todas as pessoas com que co-habitamos, por isso, agrupamo-las e atribuimos às pessoas de cada grupo umas certas características, qualidades e defeitos. Corremos o risco de "carimbar" alguém com o rótulo errado, mas facilitamos imenso a nossa vida. E, claro, assim podemos sempre dizer "Vocês são todos iguais".
Hoje apetece-me falar das pessoas que apelido de "Homens modernos portugueses". O homem moderno português é homem (concerteza!) e é português. É normalmente jovem, entre os vinte e tal e os trinta e muitos, e possui um curso superior. Saíu de casa dos pais para estudar ou para trabalhar (quando se é um jovem licenciado aceita-se emprego em qualquer lado). Na pior das hipóteses, saíu de casa para fazer ERASMUS ou um estágio profissional no estrangeiro. Sendo assim, vive sozinho ou com amigos. Em casa própria ou arrendada. Aprendeu às suas custas as dificuldades de manter uma casa razoavelmente limpa e asseada, de tratar da sua roupa e, até, de ter de se alimentar a si próprio. Não digo que seja um especialista em decoração e culinária, mas é mais do que simplesmente desenrascado. A sua casa tem um certo estilo, mesmo sendo tudo Moviflor ou IKEA, e veste-se bem, de marca ou não, mas, em caso de dúvida, de marca. É um homem que não bebe só cerveja e não fala só de futebol. Também se interessa por teatro, cinema, música, fotografia, etc. Já viajou bastante, dentro e fora do país, em trabalho ou por puro lazer (e não me estou só a referir às habituais férias nas caraíbas ou na "neve"). É um homem que respeita as mulheres, as vê de igual para igual e que as sabe tratar bem.
Não quero com isto dizer que só quem reúne todas estas características é que é moderno e que os modernos são melhores que os outros. Nem tudo o que é moderno é bom.
Obviamente que para além deste grupo, também considero o das "Mulheres modernas portuguesas" e o dos "Jovens casais modernos portugueses". Porque não há Yang sem Yin. E não há fumo sem fogo.

Friday, September 16, 2005

Elogio ao amor

Esta semana a minha caixa de correio electrónico foi invadida por um texto intitulado "Elogio ao amor". Dizia que o autor era Miguel Esteves Cardoso (MEC) e que tinha sido publicado no Expresso, mas não tinha data nem nada mais. Este fenómeno dos e-mails que são reencaminhados por toda a gente para todos os seus contactos não tem nada de novo. É até engraçado constatar que parece durar apenas uma semana para todas as caixas de correio electrónico do país receberem um determinado e-mail. O que acho interessante é que este texto já me tinha sido enviado há imenso tempo atrás, o que significa que este fenómeno apresenta semelhanças a um processo cíclico. Vai e volta. De tempos a tempos.
Decidi investigar um pouco e, ao que parece, o texto foi mesmo escrito pelo MEC e publicado no seu livro "Último Volume", cuja 1ª edição data de 1991.
Sem mais, aqui fica o Elogio ao Amor

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro.

Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.
A paixão que devia ser desmedida é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões , farto de conveniências de serviço.

Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas e cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas, já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor,a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".

Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso.

Odeio os novos casalinhos. Por onde que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. o amor é um estado de quem se sente. o amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita não faz mal. Que se invente e minta e sonho o que quiser. O amor é uma coisa a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. é sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder.

Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
.
Bonito, não é? E inspirador!
Li-o, reli-o e voltei a ler. A primeira vez, de rajada, impelido pela emoção. A segunda, de uma forma mais calma, apreendendo todo o seu conteúdo. E, por fim, saboreando cada frase e apreciando a sua beleza.
Não vou comentar o conteúdo em si, pois já muito tenho escrito sobre a vida e o amor e acho que o amor não deve ser pensado, mas sim sentido.
Em relação ao MEC, é curioso constatar que alguns anos mais tarde, salvo erro em 1994, publicou outro livro - "O Amor é Fodido".
E esta, hem?

Tuesday, September 06, 2005

Grrr... (um desabafo)

Não detestam guardar uma coisa durante tempos e tempos e, dois dias depois de terem finalmente feito uma limpeza profunda e de se terem livrado de todo esse lixo acumulado, verificarem que precisavam disso?
Grrr...
Nunca mais guardo nada.

Saturday, September 03, 2005

Ainda sobre essas coisas que tal

Custa-me tanto ver as pessoas de que gosto fazer asneiras. Custa-me ainda mais do que as minhas próprias asneiras. Porque estas, como o único responsável sou eu, tenho obrigatoriamente de as engolir e aceitar. Agoras as outras... o que me dói mais é não poder fazer nada para o evitar, é aquele sentimento de inutilidade. Como não me considero dono da razão e sei que posso estar errado, nunca digo "Não faças isso, faz aquilo...". Até porque as asneiras são um processo natural de aprendizagem. É preciso é realmente aprender com elas. Mas custa tanto...
É um pouco como a relação pais-filhos. Penso que os pais não devem estar sempre a pôr a mão debaixo dos filhos a amparar-lhes a queda. Pois, se eles nunca baterem com a cabeça, nunca irão aprender. Mas esta relação tem algo de especial, pois, aconteça o que acontecer, uns nunca deixarão de ser pais e outros nunca deixarão de ser filhos. Mas, e nas outras relações interpessoais - de amor e amizade? Não há, à partida, nenhuma ligação eterna. As relações só existem quando todos estão de acordo. Há liberdade de escolha. Sendo assim, que força misteriosa obriga a assistir a este penoso processo? E se essas pessoas precisarem de bater com a cabeça sete, oito, nove ou dez vezes? E se nunca chegarem a aprender?